sábado, 3 de janeiro de 2009

ESPOSA DE MARINHEIRO

A poucos dias do inicio da nossa missão, o Sailors News dedica este texto a todas as Esposas de Marinheiros em geral, e ás nossas em particular. Um grande bem haja para todas.

«Quando as tuas amigas falam de pequenas demoras de seus maridos, sorris tristemente. O teu tarda semanas, ás vezes meses. Elas protestam por algumas horas de imprevista solidão. Tu calas porque estás só dias e noites.
A ti são negadas algumas satisfações das demais esposas: a de preparar a casa e de embelezar-te para ele, realizas estas tarefas de forma quase automática, porque não tens a recompensa de um elogio.
As noites te trazem a inquietude. Pensas profundamente em quem guia o seu barco, vês ondas altas enfurecidas, ouves o rugir da tempestade. Ás vezes sonhas que ele voltou, que está a teu lado. A alegria te faz despertar mas abraças o vazio. O silêncio recebe tuas lágrimas e prometes arrancá-lo para sempre do encanto do mar e dos portos. Porém, logo compreendes que jamais cumprirás este propósito. Acaso lhe pedirias se fosse médico que deixasse de curar? Pedirias se fosse músico que deixasse de compor? Marinheiro o conhecesses-te e o aceitaste e assim prosseguirá. Não, não poderás estreitar seus horizontes sem limites com a eternidade.
Esposa de marinheiro. Alegra-te! Só tu, entre as casadas, continuas sendo um pouco noiva do teu marido. A rotina e o tédio que matam tantos amores não prevalecerão contra o teu. Tua imagem idealizada pela ausência o acompanha sempre. Não temas o fascínio de outras terras, tu és a mais forte, ainda longe. És o alento e a esperança. Não importa que não te veja diariamente, mas que, á sua chegada, encontre o seu lar e a sua mulher superiores aos seus sonhos.
Tua paixão de amor merece o monumento que tens na Suécia, de pé, em uma coluna sobre a alta montanha, se vê ali tua imagem, símbolo do amor permanente. O vento te despenteia e brinca com tuas roupas. Estás só e tens muito frio, porém não deixas de olhar para o mar. Não te interessa a cidade que brilha lá em baixo. Em teu peito, que parece de pedra, o coração se agita como uma gaivota prisioneira que quisera voar atrás de um barco.»

Amadeu Martire Filho

12 comentários:

Paulo Santos disse...

Nem eu teria escrito melhor...

jaime disse...

Um bom espaço para as esposas dos marinheiros, e para que as «outras» saibam o que é ser mulher. Para lugar de esposa de marinheiro só quem saiba ocupar esse espaço e sentimento com muita dignidade.

lua disse...

Bom dia, gostei do texto, está muito bom. A vida é dura e difícil para todos, compreendo que as esposas de marinheiros sofrem, mas eles ainda sofrem mais. Estar longe de quem se ama e do lar não é fácil. Gostei muito de ter visitado o teu blog.

Beijinhos.

Luis disse...

Hoje vespera de partida dia 16JAN, dia de angustia, desejo a todo STAFF uma boa viagem e bons ventos na missão.
Abraços

OBS. Tomem-me conta do meu amigo Papagaio, pois mesmo despenado...

Treclabrecas - Corroios disse...

Simplesmente "Well Donne"

"A Esposa do Marinheiro" executa igualmente com pericia a sua missão, com objectivos previstos, com situações inopinadas, com a destreza necessária para alcançar o tão desejado o dia do regresso...

Bem Hajam!

Treclabrecas

Crocodilo disse...

Textos curiosos, infelizmente maculados por numerosos acentos mal colocados. Enfim, a juventude de hoje não tem lá grande respeito pela língua de Camões. Quem sai mal visto, no fim, é a Briosa. Espero que apanhem muitos piratas.

Staff_09 disse...

Caro Crocodilo

Trata-se de uma transcrição exacta de um texto publicado na Revista da Armada. Já agora o jovem que efectuou a transcrição tem 43 anos de idade, respeita muito a lingua de Camões, e se a Briosa sair mal, no fim, não será certamente por este espaço. Votos de uma boa tarde e obrigado por divulgar o Sailors News na Voz da Abita.

Atenciosamente
O Administrador

Andreia disse...

Adorei o texto... mas gostava que tambehm se lembrem que, nos dias que correm, as "esposas de marinheiros" tambehm sao homens... "os maridos das marinheiras".
Tambehm eles ficam em cas, com os filhos, a desmpenhar o papel que outroha foi soh nosso.
A todos eles um muito obrigada por manterem o nosso mundo no sitio para quando chegarmos ele continuar a girar no sentido correcto.
E jah agora um grande MUITO OBRIGADO ao meu "marido de marinheira pela força que me tem dado por estar ah minha espera no cais depois de todas as navegaçoes sejam elas de 3 dias sejam elas de 3 meses.

sergio disse...

Numa busca de mais informações por onde e que águas andaria quem mais me importa, descobri este blog!
Fico grato pela iniciativa, sempre é mais uma janela...
O poema em causa é realmente fantástico e creio que retrata bem os sentimentos de quem está em casa à espera...
Quanto a mim, sou apenas mais um desses " maridos de marinheiras"...
Como diz a Andreia, ficamos em casa a tentar levar em frente a tarefa de fazer girar o nosso mundo.
Papoila se não te consigo roubar ao mar, espero que não seja ele a levar o que para mim é tudo...

Adri-Athenas-Grecia disse...

Exatamente assim e que me sinto,uma mulher muito bem casada,porem quase sempre solteira...Mas o amor ja superou muitas coisas,e a cada dia que passa se torna mais solido.Pior e quem nem da pra reclamar....casei sabendo.

Priscila Torres disse...

Adorei o texto!!

Estou a namorar um marinheiro e já experimento anciosos dias de espera e hoje quando estavamos prestes a se encontrar, ele foi chamado e lá se foi mais uma vez ... Fica a expectativa do retorno e a certeza que a cada retorno o amor tende a crescer e na distância a se fortalecer.

Os caminhos de Deus são perfeito, eu enfermeira, encontro um marinheiro quando estou aposentada, pois imaginem a vida de uma enfermeira e um marinheiro, nunca teriamos tempo.

Parabéns pelo blog!

kelly.gomes00 disse...

Muito interessante o tema..
Atualmente namoro um marinheiro e essas viagens realmente são uma tortura psicológica para ambos(rs).
Mas como o amor e o desejo são superiores, sempre dizemos um ao outro que "a distância nos aproxima".
O amo muito e espero continuar forte para suportar grandes saudades...

Bjocas.